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Cronica


Chegará hoje às bancas e principais livrarias do |Nordeste brasileiro, uma plaquet de autoria do Ministro Ubiratan Aguiar, que trata da morte dolorosa e sentida do Gato da Magdala. O Gato vem a ser quase um ente da familia Telles e Ubiratan, com sua enorme sensibildiade, conta vida, morte e enterro do tal gato de olhos verdes.
Veja aí:


O GATO DA MAGDALA


As luzes da avenida haviam se apagado. Os albores de um novo dia iluminavam a risca do mar. Os primeiros pássaros saíam em bando de seus ninhos para cantar a vida. Os sinos das igrejas, o apito das fábricas, a sirene dos colégios, chamavam fiéis, trabalhadores e estudantes para o cumprimento de suas tarefas.

Foi neste clima de relva orvalhada que exalou o último suspiro, o gato da Magdala. Um ambiente de consternação invadiu o lar de José Telles e Ana. Pressuroso, o genro amado , procura na condição de esculápio, envidar todas as práticas de ressuscitação conhecidas. Massageia o peito, observa os sinais vitais, e, por último, num gesto de desespero, tenta o boca-a-boca com o bichano. Debalde foram os esforços. Com ele partia o rorronar manhoso nas almofadas e travesseiros. O miado súplice por uma tigela de leite, ou por uma porção balanceada de ração, as travessuras que traziam a alegria à face das crianças, o afago macio no pelo fazendo-o adormecer.

A família reunida na sala contava muitas estórias, estripulias, escapadelas, e o pelo eriçado de Fellini no frio do Bitupitá da Serra.

O rigor de Magdala em sua criação, não ensejara nada além do que rápidas saídas noturnas, momentos furtivos de amor, sem compromisso em deixar uma descendência que agora pudesse torná-lo presente nos dias futuros.

Como avisar aos seus familiares do desenlace. As exéquias não poderiam ser realizadas longe de seu torrão natal. Imperioso se fazia proceder o embalsamamento e o traslado para Mulungu, cumeeira do Ceará, onde os céus ficam mais perto para receber inocentes. Era domingo, onde tudo se fecha, só os serviços essenciais para atendimento dos humanos aos chamados telefônicos, abrem suas portas. Diante desta realidade insuportável, desponta a única solução possível para o caso: envolver o ”de cujus” em sacos plásticos, colocando-o no freezer, a fim de que a matéria inerte não viesse a ser decomposta antes da entrega final ao pó de onde viera. Após essas providências o cortejo tomou o rumo da Serra do Baturité, desfilando por aquele asfalto, testemunha tantas vezes de seu olhar verde misturando-se com o verde da plantação, na estação das águas. Contritos os Telles, os Távoras, os Teixeiras, dirigiram-se à sua última morada e ao som do cântico da Natureza, despediram-se do dengo e da manha do fiel companheiro. Já era a hora do ângelus. O dia se afastava no poente. Acendiam-se as luzes da avenida. Exalavam os presentes suspiros de saudade.


Ubiratan Aguiar

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