Contato

Em busca da receita certa

 

São 25 faculdades de medicina no Ceará e usar jaleco não é ser médico
A criação de novo exame para formandos em medicina agrada entidades e a proposta que tramita no senado está sendo batizada de “OAB da Medicina”
Por Elizabeth Rebouças
“Ser médico é muito mais do que vestir um jaleco”. Esse alerta do professor de Clínica médica Bruno Cavalcante externa o pensamento da maioria que pensa à saúde preocupada com a situação exposta na última segunda-feira, pelo MEC, e busca saídas. Segundo a Agência Senado, já tem um projeto em análise naquela Casa que cria um teste para verificar as competências para o exercício profissional: o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (PL2.294/2024) de iniciativa do senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP). A relatoria é do senador Dr. Hiran (PP-RR), a proposta aguarda votação em turno suplementar na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE). Ela vem sendo denominada de OAB da Medicina.
Essa tentativa de nova avaliação é vista pelo médico gastroenterologista, ex-secretário da Saúde do Ceará, Elias Geovanni Boutala Salomão, 90 anos, como válida, pelo menos “para separar os bons dos maus alunos.” Ele diz que a faculdade de medicina é um celeiro de gente com “inteligência fantástica”, mas, compara com o fato de botar uma laranja podre no meio das outras “que apodrece tudo. É uma tristeza ver isso aí (refere-se ao fato de quase um terço dos cursos de medicina e 13 mil de 39 mil estudantes da área tirarem nota baixa no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed).”
Porém, o médico filho de Libanês, que foi professor da UFC por 40 anos, externa seu orgulho ao ver a boa avaliação do curso de Medicina da UFC, em Fortaleza, nota 5, e em Sobral, nota 4, que ele junto com o dr. Henry de Holanda Campos, Luciano e outros lutaram pela implantação em Sobral e em Barbalha: “Graças a Deus estão dando certo. Foram dois brotos da UFC-Fortaleza que encontraram solo fértil e bons frutos estão sendo colhidos”.
Quem também fala de um case de sucesso, e o dr. Arruda Bastos. Médico há 46 anos, é membro do Conselho Nacional de Saúde, foi ex-secretário de Saúde do Estado e fez parte do grupo de criação do Centro Universitário Christus (Unichristus) avaliado com a nota 5, a máxima, além de ser professor. Ele destaca que a capacitação do corpo docente faz a diferença. “Teve professor que chegou lá especialista e hoje é mestre ou doutor. É um exemplo que deve ser seguido.”
Arruda Bastos avalia como positiva a prova do Enamed e parabeniza o MEC pela divulgação dos resultados. O médico observa que o resultado mostra a concentração de ensino, com empresas grandes adquirindo as menores e terminando sendo mal avaliadas. A seu ver, o MEC que tem capacidade de realizar provas como o Enem, no país, todo ano, tem qualificação para também fiscalizar as faculdades que libera observando a concentração de ensino, as estruturas e o campo de estágio.
Estácio questiona
A Universidade estadual do Ceará também teve nota máxima. A pior avaliação, nota 2, ficou para Faculdade Estácio de Canindé, – privada com fins lucrativos – no Ceará, poderá sofrer sanções e uma delas é que haverá supervisão pelo Ministério. Entramos em contato com a faculdade, que através de nota reconheceu que o Enamed é importante “porque é um instrumento que auxilia na evolução contínua do ensino. Esta primeira edição do exame, porém, trouxe alguns pontos que precisam de amadurecimento, como o próprio órgão regulador observou. Por esses refinamentos necessários, que o setor está buscando entender e equacionar, e por ser um indicador isolado, entendemos que o Enamed não reflete integralmente a qualidade do ensino que oferecemos”.
A Faculdade Estácio de Canindé disse que tirou nota 5, a máxima, na avaliação também do MEC, que é o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES). Inclusive salienta que uma prova mais ampla, e que considera múltiplos aspectos (inclusive os exames de fim de curso, isso em 2025.
Termina a nota dizendo ser “fundamental lembrar a importância da unidade de Canindé não só para a saúde local, mas como para o desenvolvimento da região, pois desempenha trabalhos integrados com unidades de saúde, promovendo grandes melhorias para a saúde da cidade.”
Pilar da Medicina é o paciente
O presidente da Associação Médica Cearense, Ricardo Pessoa, afirma aO Estado que o “pilar da medicina é o atendimento ao paciente” e o resultado do Enamed é “um sinal que a formação médica precisa de melhorias e as faculdades também precisam ser fiscalizadas”.
Ricardo analisa com preocupação o quadro especificamente do Ceará e diz que alguma coisa tem que ser feita. O resultado do exame só avaliou os cursos que estão com turma concluindo. A maioria ficou de fora. O resultado significa que médicos estão sendo formados sem demonstrar domínio mínimo do que deveriam saber antes de tocar um paciente. Ele diz que não existem professores suficientes para tanta faculdade.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) estuda barrar a concessão de registros profissionais para cerca de 13 mil formandos. Isso também é visto com preocupação pois vai judicializar a questão. Afinal, diz o Médico, “o problema é complexo. Os estudantes não podem ser criminalizados. Essa prova não é o melhor, é o que existe, porque a avaliação deveria ser teórica e prática”.
Nesse ponto, o dr. Bruno Cavalcante, em seu Instagram, pergunta: “Quem vai cuidar de você? Quem vai cuidar de mim? Qual a qualidade do nosso ensino? Quem vai ensinar nessas 25 faculdades? Onde serão os locais de treinamento desses 25 cursos? O que farão após a faculdade? (As vagas de Residência não acompanham).
Essa última indagação também foi levantada pelos doutores Arruda Bastos e Ricardo Pessoa que alertam para que os alunos façam residência do MEC ou de algo similar cadastrado. Arruda defende que podemos melhorar o ensino com união das estruturas que pensam a saúde: as associações médicas, sindicato, federação se reúnam e encontrem um meio de fazer uma fiscalização amiúde e anual. Lembra que o internato é de dois anos e que é importante observar as cargas teórica e a prática.
O custo não é só financeiro de um aluno malformado. “É clínico, humano e sistêmico. Um erro de prescrição gera internação evitável. O dr. Bruno vai mais além, ao analisar a situação: Uma internação evitável consome leito, equipe, antibiótico, UTI. Uma UTI custa milhares de reais por dia ao sistema. Ás vezes custa uma vida. A má formação não quebra só o SUS. Ela quebra a confiança,” concluiu.

Relação dos 25 cursos de Medicina
1.UFC-Fortaleza
2.UF Cariri
3.UFC Sobral
4. UECE Fortaleza
5.UECE Crateús
6.UECE Quixeramobim
7.URCA-Crato
8.FMJ Juazeiro
9.UNINTA-Sobral
10.UNINTA-Itapipoca
11-UNINTA-Fortaleza
12-UNINTA-Tianguá
13-IDOMED -Iguatu
14-ESTÁCIO-Canind
15.ESTÁCIO Quixadá
16-UNIQ-Pedra Branca
17-Via Sapiens-Tianguá
18-UNILAB-Baturité
19-INIVS-Icó
20-CHRISTUS-Fortaleza
21-UNIFOR-Fortaleza
22-FLF-Sobral
23-F5-Sobral
24-FAMETRO-Fortaleza
25- Souza Leão- Juazeiro do Norte

Nenhum comentário:

Postar um comentário