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Coluna do Macário Batista para 26 de fevereiro de 2026

Opinião
Ex-Embaixador de Portugal no Brasil e depois da França, Francisco Seixas da Costa, meu amigo estimado, escreve uma opinião sobre os encontros e desencontros "do mundo de Donald Trump". Sua perforance é lucida e seu texto é limpido e esclarecedor. Vamos ler juntos:
A doutrina da subordinação preventiva
O nosso país, seja a América o que ela for, vive subordinado a uma postura simples: nunca se colocar numa posição da qual se suspeite que possa desagradar a Washington. - Donald Trump inventou num dia aquilo a que chamou o Conselho da Paz, inicialmente centrado na sua proposta para uma solução final da questão palestina. Para tal, juntou uns quantos parceiros, cada um dos quais passou um gordo cheque para ganhar a sua boa vontade. E logo anunciou ao mundo ter feito mais uma “paz”, a caminho de um futuro Nobel. O grupo tinha gente pouco recomendável, mas não seria isso que o iria distinguir do nível ético do seu promotor. O projeto era transformar uma área deliberadamente arrasada numa Riviera de águas tépidas, a leste do Mediterrâneo. Como projeto turístico, era uma excelente ideia. Tinha, porém, um irritante, como agora se diz: havia por lá uma população que habitava aquela terra desde há séculos. A densidade populacional da área era mesmo das maiores do mundo. Verdade seja que Israel, com uma meticulosa política de liquidação intensiva dos palestinianos, por ali e na Cisjordânia, como retribuição desproporcionada pelo ataque terrorista que sofrera, vinha ajudando a atenuar a tarefa.

A frase: "A chegada de Trump 2.0 atordoou o mundo, desde logo a Europa, cuja atitude face ao conflito israelo-palestiniano era, desde há muito, uma montra de impotência e cobardia. Assumindo como se fosse sua a culpa da genocida extrema-direita nazi, os europeus haviam adotado a tibieza de não ousar enfrentar Israel, temerosos do labéu do antissemitismo, ferrete usado contra quem questiona a excecionalidade do Estado judaico. Com as administrações americanas, de qualquer cor política, de mãos atadas face à pressão do seu lobby interno, a Europa cedo optou por se subordinar a Washington."
 

Show diplomatico (Nota da foto)
O Conselho da Paz evoluiu, entretanto, na dinâmica retórica de Washington, para uma instituição vocacionada para operar o milagre da paz pelo mundo, sob a liderança autonomeada do próprio Donald Trump – de quem havia de ser? À margem do encontro de Davos, o Presidente americano montou um show diplomático para o qual procurou carrear os parceiros mais complacentes.Por uma vez, a Europa hesitou. Com a agressão das taxas alfandegárias e o desplante das ambições sobre a Gronelândia, a União Europeia, um tanto ofendida, distanciou-se inicialmente do projeto de Trump. Mas o que tem de ser tem muita força e, com o tempo, numa lógica clássica da flexibilidade da vontade perante os poderes fáticos, a ética foi colocada na gaveta. Discretamente, a União informou que seria “observadora” do Conselho da Paz.

Uma ONU só dele
O Conselho da Paz, para quem tenha um mínimo de literacia em relações internacionais, é nada mais, nada menos do que um órgão com a intenção óbvia de vir a substituir-se, no plano dos factos, às Nações Unidas. Trump pretende impor a sua estrutura ao mundo e desqualificar uma organização global que, sem tutelas imperiais, tem servido de plataforma de representação útil para 193 países. 

Dimenções
A ONU atravessa um impasse, é certo, desde logo quando os membros permanentes do seu Conselho de Segurança, a começar pelos Estados Unidos e a Rússia, a utilizam à la carte. Mas é o que temos e importa notar que há muito mais Nações Unidas para além do seu Conselho de Segurança.


 

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