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Oposição tacha secretário de sonhador e fracassado

Por Bruno de Castro
da Redação do Jornal O Estado

Em clima de ressaca e sem matérias para deliberar, os deputados voltaram suas atenções aos números do carnaval 2010. Ontem, parlamentares abriram fogo contra o secretário de Segurança Pública e Defesa Social, Roberto Monteiro, por conta do alto índice de mortes registrado nos últimos quatro dias. Conforme O Estado mostrou nesta quinta-feira, 87 mortes violentas foram contabilizadas no período – um aumento de 47%, se comparado com o ano passado, quando 59 pessoas morreram.

A metralhadora foi disparada por Fernando Hugo (PSDB). O tucano questionou como o Executivo propagandeia tanto o fato de ter feito altos investimentos em segurança e, em sentido contrário, as ocorrências de roubos, homicídios, latrocínios etc só aumentam. Fala-se num acréscimo de 10% desde que o Programa Ronda do Quarteirão – carro chefe do Governo para o setor – foi implantado, dois anos atrás.

Em especial, ele citou o município de Aquiraz – Região Metropolitana de Fortaleza. Hugo qualificou a situação da localidade durante o carnaval como “um reinado de assaltos e roubos”. Os incidentes foram protagonizados principalmente por jovens, o que fez Fernando levantar a bandeira da educação continuada, constantemente empunhada pelos pedetistas Heitor Férrer e Ferreira Aragão.

COLHEITA
O tucano disse ainda ser preciso reforço no efetivo policial. “Esses dados exigem do Governo que discuta algo para iluminar esse momento obscuro. Algo que traga a paz, a luz ao Ceará. Como, em quatro dias, um estado pobre do semiárido ganha uma colheita deste tipo?”, pontuou.

As críticas não agradaram em nada ao líder do Governo na Casa, Nelson Martins (PT). Ele tentou argumentar que alguns dados não podem ser atribuídos à falta de policiamento, como os homicídios (41) e mortes no trânsito (31). “Foi montada uma operação em que quase sete mil policiais estiveram trabalhando fortemente em quase todas as regiões do Estado”, iniciou.

Entretanto, a ponderação só serviu para deixar os ânimos ainda mais exaltados e gerar um pequeno bate-boca entre os dois. O petista acabou com a fala cortada e, em seguida, teve de ouvir as provocações de Ely Aguiar (PSDC), eterno discordante das ações implementadas por Roberto Monteiro.

OLAVO BILAC
Ely teceu um discurso cheio de ironias, especialmente porque o secretário chegou a declarar que os policiais precisam usar mais a intelectualidade nas abordagens de rua. Segundo o deputado, Monteiro teria sugerido inclusive a leitura de clássicos de Olavo Bilac e Mário Quintana aos profissionais.

Foi o mote para o ataque ser intensificado. Da tribuna da AL, Aguiar recitou parte do poema “Borboleta”. “O cara tá com a cabeça atolada de crack e o PM vai dizer que ele não pode fazer um assalto porque, antes, precisa prestar atenção na obra do Olavo Bilac. Aí, o policial lê a poesia. O bandido para? Acho que o secretario é um sonhador”, alfinetou.

O parlamentar cobrou mais coragem e determinação de Roberto Monteiro, ao passo que reclamava dos arrastões acontecidos nas casas de veraneio de Beberibe. Por fim, retomou as ironias. “A Polícia não trabalha com bala de chocolate. Ela tem é que meter bala no bandido quando ele atirar contra um cidadão de bem”, comentou.

ENGANAÇÃO
De pronto, veio o reforço de Heitor Férrer. Um dos únicos opositores ao Executivo, o pedetista afirmou que os investimentos feitos pelo Governo em segurança pública são uma verdadeira “enganação” e têm dado ao secretário o status de fracassado. “O secretário pensa que está na Noruega ou na Finlândia, onde a Polícia vai enfrentar um malfeitor que apenas jogou papel fora do carro. Temos uma sociedade em 50% pobre, desesperançada, violenta e cheia de crack na cabeça. E o PM é orientado a ler livros para orientar o bandido?”, reagiu.

Ele comparou a situação do Ceará com a de países em guerra civil e, especificamente sobre Fortaleza, disse que a cidade vive um processo de “riodejaneirização”. “O Ceará faz parte do País que tem a nona economia do planeta e, mesmo assim, possui uma criminalidade tribal”, emendou, ouvindo de Luiz Pontes (PSDB) diagnosticar o que emperra o arrojo da Segurança Pública: “falta gestão”.

A inconformidade era tanta que o tucano revelou ter elaborado um requerimento solicitando a presença de Monteiro na AL para dar explicações sobre as recorrentes falhas na coordenação dos trabalhos da Secretaria. “Algo está errado. Temos os equipamentos mais modernos e as estatísticas só pioram”, atestou.

NÚMEROS
Depois do bombardeio, enfim, as justificativas. Endossado por Manoel de Castro (PMDB), Nelson Martins assinalou que o Governo adotou medidas educativas e preventivas para coibir a violência. O líder indicou que 451 motoristas foram multados durante o carnaval por dirigirem alcoolizados, 519 por dirigirem sem capacete e 101 vans foram apreendidas por irregularidades.

Ele falou ainda em 300 autuações de motoristas conduzindo veículos em áreas exclusivas para banhistas e 363 resgates de vítimas de afogamento. “Ter bons equipamentos não é pecado nenhum. Mas outra causa da violência também é a desigualdade social”, tangenciou, pedindo a Heitor Férrer que, ao invés de apenas reclamar, formule propostas para a melhoria do sistema de segurança pública.

O petista informou que, no Interior, houve redução nos índices de violência durante o período momino. Segundo ele, ano passado, foram 385 episódios; enquanto que, esse ano, foram apenas 214. “Para melhorar mais, precisamos ter propostas concretas”, incitou, para ouvir de Férrer que encontrar saídas para acabar com a violência é obrigação do Estado e não da oposição.

Penso eu: O moço apanha, apanha, mas não larga o choco.

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